Sobre Machado de Assis


É muito importante darmos atenção especial ao valor  imenso que Machado de Assis outorgou à Literatura Brasileira, por sua originalidade, genialidade, criação e ênfase ao crescimento cultural de sua geração.
.Este escritor de origem humilde e descendente de escravos, um gênio, cooperou em sua geração e ainda o faz atualmente para incentivo à leitura de nosso povo que,conforme a crítica escrita aqui não tem o costume de ler e eu fico mais triste ainda ao observar que quando se lê alguma coisa no Brasil é Paulo Coelho cujo teor e estilo de leitura, além de ser muito fantasiosa, mística, me parece também vazia de um conteúdo mais realista,pois eu acho que uma coisa é você criar, ser gênio – é o sonho de todo artista – outra coisa é plagiar ou dar uma pincelada um pouco mais diferente ao que já existe e é isto que eu acho que escritores como Paulo Coelho e David Brown fazem.(Cláudia)



“Atingir os pontos nevrálgicos do leitor.” Este parece estar entre os principais objetivos da obra de Machado de Assis, conforme já disse um de seus grandes intérpretes, Augusto Meyer,
que escreveu isso ainda na década de 30. O diálogo muito direto com
quem lê é, de fato, uma das grandes obsessões machadianas e atravessa
praticamente toda a sua obra. Ele marca todos os gêneros praticados por
Machado, da crônica ao teatro, do conto ao romance. Mas é
principalmente neste último que o leitor ocupa um lugar central e
dramático, a ponto de, a certa altura, tomar a forma de “X”, tal como
se dá com a idéia fixa de Brás Cubas.

A colocação do leitor como problema crucial da escrita coincide com a publicação de Memórias póstumas de Brás Cubas,
em 1881. O romance, que alterou os rumos da literatura produzida no
Brasil, colocando-a num outro patamar de qualidade, começa, não por
acaso, com aquele célebre prólogo, “Ao leitor”. Não se trata de um
prólogo como outros, assinado pelo autor Machado de Assis, ou pelas
iniciais M.A., que antecedem o início da narração ficcional. Esse
prólogo já aparece integrado à matéria ficcional e vem assinado por
Brás Cubas, que também é narrador e personagem principal do romance. A
partir dali, o leitor torna-se figura fundamental e matéria
constitutiva da ficção de Machado de Assis.

Essa nova disposição (ou será indisposição?) em
relação ao leitor fica clara nas palavras iniciais do romance, que vale
a pena ler mais uma vez:
"AO LEITOR
Que Stendhal confessasse haver escrito
um de seus livros para cem leitores, cousa é que admira e consterna. O
que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não
tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte e, quando
muito, dez. Dez? Talvez cinco. […]

Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e
o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor
prólogo é o que contém menos cousas, ou o que as diz de um jeito
obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo
extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas
cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás
desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te
agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com
um piparote, e adeus.”

Brás Cubas
Inaugura-se aqui, com a
ameaça do piparote, a agressividade extrema no trato com os
interlocutores. Estes não só serão contrariados em suas expectativas,
como já acontecia nos romances anteriores, mas serão freqüentemente
chamados de obtusos, teimosos, afoitos, sensaborões, caluniadores etc.
Machado renovava o romance brasileiro em muitas frentes, introduzindo
na prosa brasileira o leitor malicioso, imprestável, preguiçoso,
impaciente… No conjunto, essa galeria formava um público de qualidade
duvidosa e numericamente exíguo, o que também representava uma inovação
no plano ficcional.

Questão crônica
Também ao
perguntar quantos seriam – Cinqüenta? Vinte? Dez? Cinco? –, Brás Cubas
(e quem sabe o próprio Machado?) chamava atenção para uma questão
crônica e crucial no Brasil e na literatura brasileira: a exigüidade do
público e a falta do hábito da leitura. A situação desfavorável à ampla
circulação das letras há muito era intuída pelos escritores, que em
cartas, crônicas e artigos reclamavam da pouca repercussão dos seus
livros. Muitas vezes atribuíam isso à indiferença do público, que
preferia os títulos estrangeiros, sobretudo os franceses. Até certo
ponto, isso de fato ocorria, na medida em que a elite era capaz de ler
também em francês. Entre um livro francês e um brasileiro, que quase
sempre tinha na França o seu modelo, muita gente não vacilava e
preferia ir direto ao modelo.
Numa das muitas polêmicas que manteve nos jornais do seu tempo, José de Alencar
escrevia: “Os brasileiros da Corte não se comovem com essas futilidades
patrióticas; são positivos e sobretudo cosmopolitas, gostam do
estrangeiro; do francês, do italiano, do espanhol, do árabe, de tudo,
menos do que é nacional.” Vinte anos mais tarde, em 1895, Adolfo Caminha
continuava lamentando a fria acolhida dedicada aos livros nacionais: “A
mocidade brasileira não lê obras nacionais; agarra-se no romance
estrangeiro com um entusiasmo verdadeiramente lamentável.” O problema da baixa ressonância, no entanto, não
se resumia ao gosto. Tinha causas mais estruturais, que por muito tempo
ficaram desconhecidas, já que não havia dados e informações que dessem
uma dimensão real do problema. Foi justamente enquanto Machado produzia
sua obra que se revelou que mais de 80% da população brasileira não
sabia ler. Isso se deu com o primeiro recenseamento geral do Império,
cujos resultados foram divulgados em agosto de 1876, quando Machado já
publicava seu terceiro romance, Helena, e quatro anos antes da publicação de Memórias póstumas.

O censo indicava que apenas 16% da população brasileira era
alfabetizada. A porcentagem tornou-se ainda menor em 1890, quando se
apurou que 14,8% da população sabia ler e escrever. Ainda segundo o
censo de 1872, apenas 12 mil freqüentavam a educação secundária e havia
8 mil bacharéis no País, número ínfimo numa nação de quase 10 milhões
de habitantes.

Os números caíram como um raio sobre o público letrado.
De norte a sul do País, as reações misturavam indignação e surpresa,
resumidas na seguinte frase: “Somos um povo de analfabetos!” O próprio
Machado escre-veu uma crônica sobre os resultados do censo, perguntando
sobre a representatividade das leis e dos discursos num país em que a
esmagadora maioria da população estava excluída de qualquer processo
que envolvesse uma relação direta com a palavra escrita.

Nesse panorama verdadeiramente desolador, quantos
seriam os possíveis leitores de um romance? E qual seria a qualidade
deles?

Basta verificar o modo como a obra de Machado de Assis
circulou e foi recebida pelos seus contemporâneos para se ter uma idéia
das respostas possíveis a essas perguntas.

Inclassificável
Não resta dúvida
de que Machado foi um escritor muito reconhecido e festejado por seus
contemporâneos. Isso era uma realidade até muito antes de publicar
Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro

A princípio, a obra machadiana foi entendida como
um grande capítulo de negativas, faltando a ela colorido de linguagem,
movimentação de enredo, descrições de paisagens locais, comprometimento
com as questões brasileiras etc., etc. Estas eram opiniões
generalizadas entre os homens mais inteligentes e informados do tempo,
como Sílvio Romero, Araripe Júnior e José Veríssimo. De maneira diferente, todos expressaram desconforto com a obra, que não sabiam como classificar.

Tudo indica, portanto, que além de mal compreendido Machado foi também
pouco lido. Para além dos críticos literários que reagiram à sua obra,
sabemos muito pouco, para não dizer que não sabemos nada, sobre o modo
como ela teria sido lida por gente comum. Até hoje não veio à luz
nenhuma carta de leitor ou leitora comum endereçada a Machado. Também
não temos conhecimento de nenhuma correspondência nas seções de cartas
das dezenas de jornais e revistas em que Machado publicou boa parte da
sua obra ao longo de toda a vida.

Machado, por exemplo, lançou a primeira versão de
Quincas Borba num jornal de moda, voltado para o público feminino,
chamado A Estação. A edição do romance durou cinco anos e foi toda
acidentada, com várias interrupções. Apesar disso, estranhamente, não
há registro de nenhuma reclamação ou pedido de esclarecimento sobre
essas interrupções, nem no próprio jornal, nem na correspondência até
hoje conhecida de Machado. Helena, que foi dos romances mais populares
do autor, teve uma primeira edição de 1,5 mil exemplares e só chegou à
segunda em 1905, depois de 29 anos! Vale lembrar que Machado não era um
dentre vários grandes escritores em atividade, mas o grande escritor
brasileiro, uma espécie de chefe da literatura nacional, que havia
muito ocupava os lugares mais proeminentes da vida cultural brasileira.

Claro que havia a divulgação em jornais e revistas, e que
os livros, então muito caros, passavam de mão em mão. Mas quantos
leitores poderiam formar esse público silencioso, que não deixou marcas
de sua existência? É isso que Machado, por meio de Brás Cubas, parece
perguntar a si mesmo e a seus leitores no famoso prólogo.

E a resposta não parece ter sido muito animadora.

As Memórias póstumas de Brás Cubas foram recebidas com um silêncio
quase sepulcral. Apenas três notas e três pequenos artigos saudaram o
romance. Em quase todos, é notável o tom de perplexidade, vazado nas
indagações dos críticos: será um romance? Um livro de filosofia
mundana? Uma autobiografia?

(1899), hoje amplamente reconhecidas como suas obras-primas. Já nas
décadas de 1860 e 1870, antes mesmo de estrear como romancista, Machado
era muito respeitado como crítico, poeta e autor de teatro. Por outro
lado, sabemos das dificuldades que os contemporâneos tiveram com sua
obra, que não atendia às expectativas do tempo e não se adequava aos
modelos literários mais prestigiosos do momento.


A primeira edição de Brás Cubas em livro teve 400 exemplares, como
consta de recibo dado ao editor Garnier – e tudo indica que eles tenham
sido suficientes para atender à demanda durante 15 anos, até 1896,
quando finalmente saiu a segunda edição!

O próprio Machado parece ter esmorecido logo depois do
lançamento de Memórias póstumas de Brás Cubas, a ponto de se queixar em
carta para o cunhado, Miguel de Novais. Na resposta, datada de julho de
1882, o parente tentava reanimá-lo: “Parece-me não ter razão para
desanimar e bom é que continue a escrever sempre. Que importa que a
maioria do público lhe não compreendesse o seu último livro? – há
livros que são para todos e outros que são só para alguns – o seu
último livro está no segundo caso e sei que foi muito apreciado por
quem o compreendeu – não são, o amigo sabe-o bem, os livros de mais
voga os que têm mais mérito. Não pense nem se ocupe da opinião pública
quando escrever – a justiça mais tarde ou mais cedo se lhe fará, esteja
certo disso.”

Convite à reflexão
Diante
disso, também não surpreende que Machado, em três ocasiões, tenha se
empenhado pessoalmente em ser traduzido para o alemão, como se buscasse
fora do Brasil um tipo de acolhida que não encontrava aqui. Foram três
tentativas frustradas. Só nos últimos anos de vida as Memórias póstumas
e Esaú e Jacó saíram em Montevidéu e Buenos Aires, respectivamente em 1902 e 1905.

O interessante e notável é que Machado, ao invés de buscar tapar o sol
com peneira, ou reclamar pelos cantos, como fizeram muitos escritores
antes e depois dele, soube encarar de frente a nossa carência e o nosso
despreparo como leitores, trazendo o problema da comunicação literária
para o centro da sua ficção.
Ao fazer uma literatura que coloca o
leitor e a leitura como um problema complexo e fundamental para o
processo literário, Machado nos convida à reflexão crítica sobre as
condições difíceis da produção e da difusão da literatura no Brasil, o
que vale tanto para o século 19 como para os dias de hoje. Em pesquisa
recente do Instituto Pró-Livro, 45% da população declara não gostar de
ler, num país onde quem lê compra em média 1,2 exemplar por ano.

Nesse sentido, reler Machado de Assis pode nos ajudar a
construir uma perspectiva histórica para a questão da leitura, que
ainda hoje permanece como problema urgente e nevrálgico, a ser
enfrentado sem subterfúgios. ©

Sobre nunaina

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