uM POUCO SOBRE A aFRICA ATUAL


“Nós não temos a mínima pista de como é a sociedade angolana – ou a
moçambicana. Aliás, a maioria de nós deve pensar que Angola,
Moçambique, Madagascar, Zanzibar é tudo a mesma coisa, não é?” Escrito
em tom de autocrítica pelas autoras do blog carioca Duas Fridas num
post sobre o acordo ortográfico, o texto acima é um resumo bem-acabado
de como nós, brasileiros, sabemos pouco sobre a África. Em Madagascar,
ilha do Oceano Índico de onde vieram aqueles simpáticos pinguins do
cinema, fala-se francês. Já em Zanzibar, conjunto de duas ilhas na
costa da Tanzânia, o idioma é o inglês. “A África é um planeta
diferente, um cosmo múltiplo. Somente por comodidade simplificamos e
dizemos ‘África’. Na verdade, a não ser pela denominação geográfica,
ela não existe”, explica o jornalista polonês Ryszard Kapuscinski no
prefácio de Ébano,
livro fundamental para entender as diferenças entre os 53 países do
segundo continente mais populoso da Terra (900 milhões de habitantes,
só perde para a Ásia) e o terceiro mais extenso (cerca de 30 milhões de
quilômetros quadrados, ou 20,3% da área total de terra firme do
planeta).

Kapuscinski, morto em 2007,
percorreu o território de ponta a ponta durante quarenta anos do século
20, nos quais mais de 10 mil pequenos países, reinos, uniões étnicas e
federações deste lado de cá do Atlântico conseguiram se libertar do
domínio europeu. Ele ainda teve fôlego para retratar o cotidiano dos
nativos em A guerra do futebol,
além de traçar o perfil de ditadores como Hailê Selassiê, autocoroado
imperador da Etiópia de 1930 a 1974, ano em que foi deposto.

Como em todo o mundo, a história se
repete como farsa também na África. Robert Mugabe, no poder há 28 anos
no paupérrimo Zimbábue, foi apelidado em outubro último de “O
destruidor” pelo jornalista Jon Lee Anderson (o mesmo que escreveu Che Guevara: uma biografia)

Mas por outro lado, o continente-berço da civilização também deu
ao mundo figuras de grande envergadura, como Nelson Mandela, o
ex-presidente da África do Sul que ficou encarcerado durante quase três
décadas por lutar contra o Apartheid – regime de segregação racial
imposto pelos brancos –, e Miriam Makeba, conhecida em todo o mundo
como “A imperatriz da canção africana”, vencedora do Grammy de 1966
pelo disco An Evening with Belafonte/Makeba, cuja voz radiosa calou-se
em novembro passado durante show contra o racismo na Itália.

Nas palavras do historiador e diplomata Alberto da Costa e Silva, anotadas nas primeiras páginas do clássico A manilha e o libambo, “um africano de uma região pode ser tão diferente do de outra quanto um alemão de um andaluz e um húngaro de um escocês”.

VAI E VEM
Já que é
praticamente impossível apresentar em profundidade toda a África, sua
incalculável variedade linguística e sua riquíssima cultura milenar,
nada melhor do que começar a entender o continente a partir da
realidade de nossos parentes mais próximos. Angola, Cabo Verde, São
Tomé e Príncipe, Moçambique e Guiné-Bissau são os cinco países onde
oficialmente fala-se português, além de diversas línguas nacionais,
como crioulo, quimbundo e ovumbo, os dois últimos ramos linguísticos do
tronco banto.

Em todos eles, principalmente em Angola, nação que, de acordo com um dos Sermões
do Padre Antônio Vieira, formava um agregado único com o Brasil no
século 16, está em curso uma revolução cultural que daqui a alguns anos
certamente vai atravessar o Atlântico e talvez tenha, guardadas as
devidas proporções, o mesmo impacto provocado pelo desembarque dos 11
milhões de africanos nas Américas enquanto vigorou a escravidão.

Só de Angola para o Brasil foram
levados mais de 4,8 milhões de cativos de acordo com os cálculos do
historiador catarinense Luis Felipe de Alencastro em O trato dos viventes.
Os africanos, apesar de todo o sofrimento imposto pelo degredo, foram
grandes responsáveis por obras-primas da cultura mundial como o jazz, o
samba, a rumba, a capoeira, o candomblé, reinventaram a cozinha dos
colonizadores portugueses, ingleses e espanhóis e, no caso específico
do Brasil, contribuíram para retirar os “ossos” da Língua Portuguesa.

Hoje, de acordo com estimativas da Embaixada do Brasil em Luanda,
vivem mais de 40 mil brasileiros no país. “Eles trabalham em empresas
de construção civil, indústria petrolífera, agências de publicidade,
universidades e prestam consultoria em diversos ramos de atividade”,
explica a secretária Fabiana Moreira. Em média, todos retornam ao
Brasil a cada três meses para passar férias de quinze dias com a
família. “Será que Angola não se transformará numa espécie de 27º
Estado brasileiro?”, questiona Mathias de Alencastro, filho do
historiador e estudante de História que defenderá uma tese de mestrado
sobre o país este ano na Universidade de Paris.

Em Cabo Verde, o nome mais representativo
das artes vem da música, mais especificamente da morna, um tipo de
canção que mistura crioulo com português, e é Cesária Évora. Conhecida
em todo o mundo como “A dama dos pés descalços”, Cesária cantou para o
então presidente Bill Clinton, na Casa Branca, gravou algumas canções
com Caetano Veloso e foi a grande atração internacional da mais recente
edição da Virada Cultural, quando cantou no cruzamento das Avenidas
Ipiranga e São João, em São Paulo, grande sucessos como “Lua nha
testemunha” e “Mar azul”.

A cultura Moçambicana, como a cultura
africana em geral, continua a ser apenas associada ao imaginário de
Tarzan, de cinema americano, máscaras e artesanato ancestral. Uma idéia
enviesada que contribui para desvalorizar a produção artística
contemporânea do continente. Ninguém fica indiferente após conhecer a
obra de Malangatana, José Craveirinha (que em 1991, tornou-se o
primeiro escritor africano ganhador do prêmio Camões) ou Mia Couto.
Malangatana é um dos artistas plásticos moçambicanos mais reconhecidos
internacionalmente. Mas existem trabalhos que merecem destaque, como os
de: Ângelo de Sousa, João Aires, João de Paulo ou Rui Calçada Bastos.
Bertina Lopes é outro nome que revela ao mundo a qualidade da produção
artística da ex-colônia portuguesa, segundo a crítica italiana Paola
Rolletta: "Na história da pintura, muitas vezes seu nome é posto ao
lado da mexicana e grande artista, Frida Khalo. Duas vidas diferentes,
mas com traços comuns muito fortes, e sobretudo com qualidades
pictóricas e humanas muito peculiares". Entre os escritores, vale
lembrar de Rodrigues Júnior, Guilherme de Melo, Luís Bernardo Honwana,
Correia de Matos e Ungulani Ba Ka Khosa. Entre os poetas, José
Craveirinha e Rui Knopfli são os mais conhecidos, mas não devemos nos
esquecer de Alberto de Lacerda ou Reinaldo Ferreira.

A música moçambicana também impressiona. Em
2005, a Unesco reconheceu a timbila chope, um instrumento de percussão,
como patrimônio da humanidade.

Na Guiné-Bissau, o clima político instável
não permite que a força artística projete-se para o mundo. Há dois
meses, um golpe de estado colocou o minúsculo país outra vez no
noticiário internacional. Vale a pena, no entanto, conhecer a obra dos
escritores Amílcar Cabral e Félix Sigá, ambas marcadas pela relação do
país com o mar.

Em São Tomé e Príncipe, por sua vez, duas
ilhotas reunidas sob a mesma federação, faltam coisas básicas como
dentistas, mas a pintura de Almada Negreiros e a música de Viana da
Mota nos encantam ao primeiro contato, pois transmitem algo de ingênuo
muito próximo do registrado no Brasil rural do século 19.

num perfil singular para a revista The New Yorker.


ANGOLA É AQUI
A população de aproximadamente 17 milhões de habitantes sabe quase tudo
sobre o Brasil, desde a escalação dos nossos times de futebol, os
atores e atrizes mais famosos, o nome de nossas praias, até pormenores
sobre a vida de escritores como Jorge Amado, Graciliano Ramos e, claro,
Paulo Coelho. “Os africanos consomem intensamente a cultura
contemporânea brasileira, mas o contrário ainda não acontece”, diz o
músico Fernando Alvim, diretor da Fundação Sindika Dokolo. A
instituição dirigida por Alvim detém a maior coleção particular de arte
contemporânea africana, organiza a Trienal de Luanda (a segunda edição
está agendada para 2010) e acaba de inaugurar, em São Paulo, a Soso,
primeira galeria de arte contemporânea no país. Instalada num edifício
projetado por Oscar Niemeyer, na Avenida São João, o espaço exibirá, na
coletânea de inauguração, trabalhos dos vídeo makers Ihosvanny e
Yonamine e fotografias sobre alumínio de Cláudia Veiga e Kiluanji Kia
Henda, todos referências nacionais em suas respectivas áreas. “No
Brasil, a África ainda é vista como o continente da escravidão, da dor
e do sofrimento, muito por causa de poemas como O navio negreiro,
de Castro Alves. A abertura da galeria vai ajudar a mudar essa visão e,
quem sabe, causar o mesmo impacto e estranhamento artístico que
Basquiat conferiu à cena artística de Nova York nos anos 1980”, aposta
Alvim.

De forma geral, há um movimento organizado entre os artistas
angolanos para que os seus trabalhos não sejam reduzidos no imaginário
mundial a máscaras decorativas, adornos de marfim ou tecidos com
geometria colorida. O primeiro passo foi a retumbante participação do
país no pavilhão africano na última Bienal de Veneza, mostrando
exatamente tudo o que fosse diferente de máscaras, colares e tecidos.
“A ideia de que, para o século 21, a contribuição da África na história
da arte mundial se reduziria ao artesanato decorativo gela-me o sangue.
Ou talvez não, faz-me ferver”, escreveu o colecionador Sindika Dokolo
num manifesto lançado em Luanda em 2006. Até o presidente da República,
José Eduardo dos Santos, tomou para si os anseios dos artistas e, num
discurso dirigido ao ministro da Cultura, fez mea-culpa por ter se
pronunciado poucas vezes sobre o tema. “Minha principal atenção foi
dedicada a prioridades como defender nosso território de agressões
externas e manter as fronteiras estabelecidas”, justificou o homem que
está no poder em Angola há 30 anos, mas se distingue dos seus homólogos
pela condução da guinada do ex-país marxista à economia de mercado
feita em 2002, levando a nação a ser a única que cresce a taxas de dois
dígitos no continente.


NOVOS SONS AFRICANOS
Em Luanda, Benguela, Huambo, Namibe… em todas as capitais provinciais
angolanas, o cenário é de caos. Centenas de gruas erguem edifícios de
um dia para o outro e o que se escuta é barulho, muito barulho, tanto
de máquinas pesadas como também de novos sons que tocam nos
alto-falantes das candongas, um tipo de van chinesa de cor azul
convertida no único tipo de transporte público existente no país, e nas
caixas de sons dos quintais.

Nada pode impactar mais os ouvidos do
visitante do que o kuduro, um ritmo musical criado há dez anos nos
Mussekes (como são chamadas as favelas com barracos de lata no local)
por adolescentes procurando notoriedade, uma forma de se afirmar num
país onde a justiça ainda é madrasta. As letras são de protesto, assim
como no rap das favelas cariocas e paulistas, e procuram retratar os
problemas de todos os dias, como a criminalidade, a prostituição, a
corrupção, a falta de água e luz, a condução lotada etc.

Os kuduristas mais consagrados do país são
Helder, o rei; Dog Murras, o patriota; Sebem, o mais popular, e Puto
Prata, o doutorado. O ritmo invadiu todos os lares, carros e festas da
classe média e alta do país e começa a se tornar conhecido também no
Brasil. O kuduro já foi tema do quadro “Central da periferia”, de
Regina Casé, exibido no Fantástico, e tornou-se atração fixa no
matutino Hoje em dia, da Rede Record, emissora que transmite a
programação brasileira para toda a África lusófona.

Outro ritmo muito forte é o hip-hop (que
aqui se pronuncia “ip-óp”), estilo que tem no quarteto Os Kalibrados
seu maior expoente. O grupo, formado por quatro jovens que se vestem de
grifes famosas da cabeça aos pés, usam pulseira e correntes douradas e
não dispensam óculos escuros bem fashion, já fez mais de 150
apresentações dentro e fora do país nos últimos três anos, além de
abrir shows de colegas famosos ao redor do mundo, como DMX, Missy
Elliot, Kanye West, Pharrell Williams e 50 Cent, este último fã
confesso de Angola, mesmo tendo sido vítima de um assalto que lhe
custou uma famosa correntona e um bling cravejado de diamantes durante
uma apresentação para 7 mil pessoas, em abril de 2008. De acordo com o
jornal O País, o álbum Cartas na mesa, lançado em dezembro, vendeu 11
mil cópias nas primeiras doze horas da sessão de autógrafos que Os
Kalibrados fizeram na portaria de um cinema. Faixas como “Não deu para
ser fiel” e “Bam Bri Bam” estão na boca do povo.

Numa vertente mais soft, surgiu há oito
meses a Next, banda que faz um som afro-eletro-acústico e que se
converteu na melhor tradução musical contemporânea de Luanda. O sexteto
gravou o primeiro CD e DVD em novembro e, entre uma música e outra,
promove releituras dos poemas de Agostinho Neto, o homem que comandou o
Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), principal partido de
oposição ao regime colonial português e, depois, se transformou no
primeiro presidente do país, em 1975. De acordo com uma reportagem de
Gabriel García Márquez publicada em 1976 na então revista Homem (que
dois anos depois passaria a se chamar Playboy), Agostinho Neto, na
prisão, compunha seus poemas com letras miúdas em pequenas tiras de
papel e as escondia enroladas dentro de um cigarro. Às vezes, só havia
dois versos em cada cigarro. Quando sua esposa Maria Eugênia ia
visitá-lo, ele lhe oferecia um cigarro e ela o levava sem acendê-lo,
porque sabia que era o dos versos. Em sete anos de cárcere, escreveu
Sagrada esperança, livro que reúne 49 poemas.


LITERATURA E CINEMA
Nas duas últimas edições da Festa Literária de Paraty, a FLIP, dois
escritores angolanos surpreenderam a plateia: José Eduardo Agualusa,
autor de As mulheres do meu pai,
e Pepetela, o nome de maior projeção internacional das letras
angolanas, vencedor do Prêmio Camões em 1997 e autor, entre outros, de Parábola do cágado velho,
uma metáfora do horror vivido por dois irmãos que têm que fazer a
guerra civil em lados opostos. Tido como uma das reservas morais do
país, da mesma forma que Jorge Amado foi para o Brasil, Pepetela
recentemente foi homenageado e teve seu nome dado a um auditório no
centro da cidade.

Lá, teve lugar, em novembro, a primeira edição do Festival
Internacional de Cinema de Luanda. A história da sétima arte no local
foi determinada, basicamente, pelo desenrolar da guerra. De 1985 até
2002, quando o conflito teve sua fase mais cruel, o cinema desvaneceu
até a quase total inexistência.

Em 2004, houve uma espécie de renascimento
com o lançamento dos longas O herói, de Zezé Gamboa, e, dois anos
depois, Na cidade vazia, de Maria João Ganga. Os documentários, por sua
vez, surgiram com mais frequência, como é o caso de Angola: saudades de
quem te ama, do namibiano Richard Pakleppa; Oxalá cresçam pitangas, de
Ondjaki (também escritor representante da nova geração e atualmente
morando no Rio de Janeiro) e Kiluanje liberdade, uma receita para curar
os traumas do conflito com ginástica e ironia; Kuduro – Fogo no
Musseke, de Jorge António, sobre a música/dança que tanto dá o que
falar; e É dreda ser angolano, do coletivo Família Fazuma, um relato da
vida dos guetos e da economia informal do país.

O grande vencedor da mostra FicLuanda foi
Mario Bastos, um angolano de 22 anos que mora em Nova York e rodou
Kiari, a história de um rapaz que se prepara para receber um autógrafo
do seu jogador de basquete preferido, mas que se desilude com a conduta
do atleta. “É um filme sobre a perda da inocência patente na frase:
‘Segue o teu sonho, não sigas o teu herói’”, declarou Bastos na hora de
receber o troféu. O diretor já começou a rodar, junto com o músico
Keita Mayanda, um documentário sobre hip-hop intitulado O underground e
o mainstream namoram em segredo. “Os autores querem trabalhar as
semelhanças e o mundo secreto entre as duas correntes do estilo
musical”, apontou Marta Lança, da revista Vida. “Quando se passa algum
tempo em cidades como Nouakchott (Mauritânia), Dakar (Senegal) ou
Luanda, o que se percebe é que tudo está em permanente mudança”, diz
Pedro Pinha, um dos diretores de Bab Sebta (ainda sem previsão de
lançamento no Brasil), filme que causou choque na mostra por contar as
histórias de humilhação vividas por africanos na passagem fronteiriça
entre Ceuta e Marrocos.

Como em todo o mundo, os novos paradigmas do
século 21 estão presentes na África e José Craveirinha, um de seus
maiores poetas, ensina: para ser herdeiro do futuro, o passado não pode
ser omitido. ©


Site: www.livrariacultura.com.br

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Uma resposta para uM POUCO SOBRE A aFRICA ATUAL

  1. Solange Plaça disse:

    Dez esse texto…ótimo para reflexão….

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