Sobre cursos e oficinas literárias





Ah, escrever! Deleitar-se com as próprias
palavras, ou, pelo contrário, sofrer com elas à procura de expressão
própria, singular, de preferência reconhecível pelo outro, pelos os
outros, pelo mundo. Ou nada disso, então: escrever simplesmente por
necessidade, como o músico que adoece se não criar e produzir sons e o
pintor que não resiste às telas virgens. Longe das vaidades”, não
deveria ter o OS em “pelos OS outros”.



Qualquer que seja a motivação, acontece no
Brasil, talvez no mundo, uma corrida, sobretudo
de jovens, às técnicas de redação. A maioria
quer redigir suas próprias criações, mas há,
ainda, os que gostariam de se expressar
melhor, produzir um bom relatório empresarial, passar
no vestibular.



Só existem dois caminhos para aprender a
organizar palavras: o autodidatismo, escolha da
maioria dos escritores, e as oficinas de
escrita, também chamadas de “escrita criativa”,
cursos de produção fictícia ou cursos de
literatura, mesmo. Mas a pergunta se impõe: será
que alguém ensina alguém a escrever?



MESTRES E MAIS MESTRES

“Minha oficina começou há exatamente 25
anos, dentro do então curso de pós-graduação em
Letras da Pontifícia Universidade Católica
do Rio Grande do Sul (PUCRS)”, diz o professor
Luiz Antonio de Assis Brasil. “Surgiu da
ideia de unir minha condição de escritor com o fato
de ser professor por profissão e gosto.
Inicialmente, fui tateando, experimentando, errando.
Tive a boa vontade de meus alunos – ou
vítimas. Procurei concentrar-me nas coisas que me
ocorriam como escritor – fui o modelo de mim
mesmo. Tentei organizar tudo isso para transmitir
aos alunos, mas sempre respeitei o modo de
escrever de cada um deles; a literatura é o território
da liberdade e seria uma contradição
limitá-los a copiar o meu
modus literário.” Continua: “Com
o passar do tempo, consegui organizar um
programa a ser desenvolvido por etapas. O projeto inicial
previa um semestre, mas foi pouco e
expandimos para um ano. Ao que parece, esse é o tempo ideal, em
que as pessoas conseguem aturar-se e ao
professor. O que trabalho? Creio que posso resumir: exercícios
de desbloqueio criador; prática das
diferentes técnicas narrativas; criação da personagem;
construção do tempo, do espaço”.
Essa trajetória começou em uma cidade do
interior do estado, onde ele vivia. Sem atrativos,
era natural que o garoto se tornasse um
grande leitor. Os jesuítas, sempre lembrados por certo
radicalismo pedagógico, o obrigaram a ler
bons livros. Primeiro os clássicos e só muito tempo
depois os contemporâneos. Virou excelente
aluno de redação. Hoje, usa sua própria experiência: “Boas
leituras são indispensáveis, essenciais. Mas
o trabalho da escritura tem a mesma importância.
Trabalho com alguns exercícios de
intertextualidade, como a paráfrase”. Assis Brasil mantém uma
turma pequena de 15 alunos. Este ano está
recebendo cinco discentes de fora do Rio Grande do Sul.



Raimundo Carrero, um dos pioneiros de
oficina no Brasil, tem turmas no Recife, no interior de
Pernambuco e por todo o país, para onde
viaja a convite. Ele vai logo desmitificando: “Alguns
jovens, sobretudo os jornalistas,
descobriram que sabem tudo, aprenderam tudo, menos escrever.
E nos procuram. Mas nem sempre os alunos
querem ser escritores: a eles, basta saber ler. Está bom demais”.



O público de Raimundo, como ele mesmo diz,
“é o mais heterogêneo possível, desde menino de
vestibular até aposentados”. Esse pioneiro
foi convidado, nos anos 1980, a participar do célebre
Encontro Internacional de Escritores, em
Iowa, nos Estados Unidos. Foi um dos 20 convidados. Na volta, criou
sua oficina e já tomou um susto: foi
procurado por dezenas de pessoas. Hoje, cuida de três turmas, com
média de dez alunos cada.



Raimundo Carrero revela seus métodos, sem
problemas. Hoje, está propondo o estudo de
A educação
sentimental
, de Gustave Flaubert.
“Este livro é ótimo para exames e estudos. Também produzo apostilas.
Antes, não havia nada; hoje, bibliotecas
inteiras.”
Flaubert talvez seja o mais lido e analisado
em oficinas, na frente de Clarice Lispector, Graciliano
Ramos, Rubem Fonseca, Nelson Rodrigues e
Ernest Hemingway – os mais citados.



Charles Kiefer, professor da PUCRS e criador
de oficinas, também teve seu começo na Universidade de
Iowa, em 1986. “Naquele ano, fui o escritor
brasileiro no International Writing Program. Lá, vi que as
oficinas eram comuns em países
desenvolvidos. Ao retornar, abri a minha primeira, na Casa de Cultura
Mario Quintana. Somente três alunos. Nunca
mais parei. Hoje, milhares já passaram por mim; a lista de e
spera tem mais de 1.400 pessoas.”



Realmente, os números do professor
impressionam: “Cada grupo tem 30, 40 alunos. Tenho uma
empresa só para cuidar de oficinas em que
trabalham comigo os escritores Luiz Antonio de Assis Brasil,
Moacyr Scliar, Luis Fernando Verissimo,
Armindo Trevisan, Donaldo Schuler, Regina Zilberman, Luciano
Alabarse, Sergius Gonzaga etc. São mais de
400 alunos”.



Charles Kiefer prefere não falar de seu
método de ensino (“assim como a Natura e a Coca-Cola não
revelam seus segredos, eu também não”), mas
chama a atenção para resultados incríveis. São dezenas de
alunos ganhando concursos e publicando
livros.



“Faço uma seleção rigorosa. Transfiro alunos
de uma turma a outra, conforme os perfis. Desmancho
grupos que não funcionam. Isso gera certo
estresse, mas quem entra para o meu time já sabe: o método é
obstinado. Sem ilusões. Meus alunos estudam
de Aristóteles às modernas teorias literárias.”




SEM CONCESSÕES

Os antigos alunos jamais se esquecerão das
oficinas do escritor João Silvério Trevisan, romancista
premiado, jornalista, dramaturgo, tradutor e
cineasta. João, que juntou sua primeira turma em
1987, é conhecido por suas aulas “intensas”,
segundo definem seus alunos. “Tenho orgulho de dizer:
criei meu próprio método. Durante anos,
experimentei metodologias, exercícios, contatos, jeitos.
Depois, iniciei as aulas literárias na
Oficina Cultural Três Rios, recém-criada em São Paulo.
Para mim, o trabalho pedagógico das oficinas
é um compromisso vital, tanto quanto a própria
literatura. Como coordenador, não brinco em
serviço. Exijo atitude profissional: sempre digo que
escritor de fim de semana é amador. Escrever
é algo cotidiano, ainda que não seja profissão,
já que o aluno tem outros compromissos.”



João configurava suas oficinas com um máximo
de 20 participantes, duração de quatro meses de
trabalho; dois encontros por semana; três
horas por encontro. Não indicava livro algum. “O essencial
é a criação de textos com base em estímulos
que apresento aos alunos. Todos têm de dar opinião
sobre os textos de todos. Parto de umo
princípio que:, para analisar seu próprio texto, é
fundamental analisar o alheio.”



João Silvério Trevisan não está dando
oficinas neste momento, apesar de receber muitos convites.
Por quê? “Remuneração aviltante e amadorismo
total na organização dos esquemas de pedagogia
literária. Oficina virou algo apenas para
encher espaço, com poucos gastos. Não tem projeto
cultural ou contextualização programática.
Por isso, defendo, há dez anos, a ideia de uma
escola de criação literária.”



João revelou ao mercado os escritores Nelson
de Oliveira, João Luiz Carrascoza e Roberto
Causo. “Dos outros alunos, não tenho ideia.
Muitos seguiram a carreira jornalística, outros
foram para a tevê.”



TERAPIA?

Há oficinas diferenciadas a partir de seu
público. É o caso do espaço de Oswaldo Pullen
Parente, em Brasília, cujo trabalho de
coordenação começou recentemente: em 2006, ele procurou
cursar uma oficina, em Brasília, e não
encontrou nenhuma. Um ano depois, já tinha a sua.



“Não é um curso de literatura, nem de
português. Sou apenas um oficineiro.” Ele é mais procurado
por profissionais da área privada, com mais
de 40 anos, e por muitos aposentados. Oswaldo também
recebe indicações de terapeutas e considera
isso normalíssimo. “Um barato.” “Às vezes, minha
oficina fica com cara de terapia de grupo.
Até briga, dá!”



Marcelino Freire, escritor pernambucano da
nova geração, premiado e divulgado, é ex-aluno de
Raimundo Carrero. Aos 19 anos, largou um
emprego de banco para mergulhar no estudo da literatura.
Trouxe na memória Dalton Trevisan e Clarice
Lispector. Mas, nas aulas de Carrero, surgiram outros
mestres, como Graciliano Ramos e, é claro,
Gustave Flaubert.



“Flaubert era um obcecado, um cara que
trabalhava a palavra até as últimas”, diz ele. “Mas Flaubert
não me encanta tanto. Sou mais fissurado na
concisão do mestre Graciliano.”



Aos alunos, Marcelino manda “ouvir a rua”.
“Minha oficina é uma grande conversa, um papo
apaixonado sobre literatura. Minha turma tem
de ter no máximo 20 participantes. Vários deles já
publicaram. Acompanho os avanços. Vou fundo,
cutuco. Todos querem soltar os cachorros do peito.
Aí, organizo o canil.”



Bem diferente da professora Rosa Maria Cuba
Riche, do Rio de Janeiro, que abriu a Oficina da
Palavra APLIC, em 1986. Autora de livros
sobre leitura e redação, a professora dá atenção especial
às necessidades culturais da periferia. Seu
público é composto de crianças, adolescentes e
profissionais de todos os tipos, inclusive
jornalistas e taquígrafos da Assembleia Legislativa do
Rio de Janeiro. Deputados reclamavam de que
as notas taquigráficas não eram fiéis às suas falas.
Agora, estão satisfeitos.



O OBJETIVO: ELES

E os alunos? Ou, para quem não gosta de ser
chamado assim, os participantes?
É impressionante, mas quase todos dizem
praticamente o mesmo: que já escreviam antes “alguma coisinha”;
que a oficina não molda ninguém; que apenas
dá senso crítico, um pouco de humildade diante de críticas;
que de forma alguma foram influenciados no
conteúdo de suas criações.



A poetisa Anita Costa Malufe, com livros
publicados , faz oficinas e acredita que há preconceito de
muitos escritores com medo de um “molde” que
lhes seria impingido. Aberta às experiências e generosa
nas avaliações, Anita reconhece a
importância de Regina Gulla, coordenadora de sua primeira oficina,
na sua formação de poetisa e leitora.



Nelson de Oliveira, aluno de João Silvério
Trevisan, hoje trabalha como coordenador de oficinas e tem
uma visão levemente dramática da sua
primeira experiência: “Foi extenuante, uma autodescoberta.
A oficina me mostrou o que realmente eu
estava a fim de fazer: escrever, construir uma carreira.
Eu escrevia sem me comprometer muito com uma
ideia mais sofisticada de literatura. As duras provações
da oficina moldaram meu caráter.” Nelson já
publicou mais de 20 livros e continua produzindo
freneticamente, como escritor e professor.



O contista Juarez Cruz, médico psiquiatra de
profissão, com livros publicados e prêmios ganhos, dá grande
importância ao “olhar do outro” numa
oficina. “O olhar, a leitura e a opinião do outro liquidam, de modo
muito salutar, o embevecimento narcísico e
aponta: ‘Olha, essa ideia não está clara etc. etc.’”



Alguns alunos são especialmente humildes,
como Rodrigo Rosp, dois livros publicados, muito elogiado no meio
literário e dono de frases assim: “Numa
oficina, acho que, sobretudo, aprendi a diferenciar um texto
profissional
de um amador. Aprendi a ter cuidado enorme
com a frase, revisar, ler em voz alta o texto para experimentar a
sonoridade.
”As oficinas de escrita multiplicam-se pelo
país e, independentemente de sua qualidade, o saldo será sempre
positivo.
Estimulam a leitura e o consumo de livros.
”©

OUTRO LADO

Como tudo na vida tem contraponto,
há quem diga que oficina de escrita
não serve de nada. A opinião vem de
Louis Menand, articulista da revista
The
New Yorker
– leitura obrigatória
do meio
literário sofisticado. “Programas de
escrita
criativa são baseados na teoria de
que
estudantes que nunca publicaram um
poema
podem ensinar a outros estudantes
como escrever um poema publicável”.
Teve coisa pior. Hanif Kureishi,
elogiadíssimo
escritor inglês de origem
paquistanesa,
disparou: “As oficinas literárias
são os novos hospitais
psiquiátricos”.

Sobre nunaina

seguendo davanti sempre
Esse post foi publicado em Sem categoria e marcado . Guardar link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s