Joaquim Rodrigo Vidre 1901-1999



Por Arthur Torelly Franco
torelly@polors.com.br

El marqués de los Jardines de Aranjuez




A nobreza espanhola costumava passar determinadas temporadas do ano
nas Residências Reais, localizadas nos arredores de Madrid. Felipe II
fundou uma pequena vila às margens do rio Tejo, junto à estrada que
conduz para a região da Andaluzia. O povoado recebeu o nome de Aranjuez
e o rei e sua comitiva tinham o hábito de lá permanecer por algumas
semanas, durante a primavera, antes de seguirem para uma estadia mais
prolongada na Granja de Santo Ildefonso e no Escorial.

Com a chegada ao poder da dinastia dos Bourbons, os reis Felipe V e
Felipe VI, sucessivamente, se encantaram com Aranjuez. Arquitetos,
engenheiros e paisagistas foram contratados, para criar novos palácios e
belíssimos jardins, dignos de qualquer monarca europeu.

Aranjuez passou a ser conhecida internacionalmente, ao ter seu nome
ligado a um concerto para guitarra e orquestra, O Concerto de
Aranjuez
, de autoria do compositor espanhol Joaquín Rodrigo Vidre
(1901-1999).

De acordo com o crítico Brendan Beales, podemos perceber a sombra de
Goya por entre os compassos desta obra cheia de emoção e melancolia. A
música deste concerto nos traz a essência do espírito das cortes dos
séculos XVII e XVIII, aonde os traços da aristocracia vigente se
misturam às efusões da cultura popular da época.

Devemos registrar que Rodrigo era cego desde os três anos de idade e
conseqüentemente a descrição musical de Aranjuez é uma coletânea dos
sons e perfumes dos jardins dos palácios reais, registrados pelo autor
durante os passeios diários que fazia com a esposa, durante sua lua de
mel, em 1933.

O concerto está dividido em três movimentos: Allegro com spirito,
Adágio e Allegro Gentile, sendo que a primeira e a última parte
servem de moldura para o fascinante Adágio. Sem dúvida alguma, o
tema central fez com que o Concerto de Aranjuez ganhasse uma
popularidade extraordinária desde sua estréia em Barcelona, em 1940.

Foram criadas dezenas de versões populares do Adágio, que
acabaram por desvirtuar o valor da obra original. A mais conhecida
chama-se Aranjuez mon amour, arranjada por Bill Evans e
interpretada por Miles Davis. A presença constante desta música nas
paradas de sucesso auxiliou a divulgar a obra original trazendo fama,
reconhecimento mundial e muito dinheiro para o autor. Por outro lado a
fama avassaladora do Concerto de Aranjuez eclipsou o resto da obra de
Rodrigo.

Entre seus principais trabalhos merece destaque a Fantasia para
un Gentilhombre
, peça para guitarra e orquestra. Ela está baseada em
músicas compostas em 1674 pelo padre Gaspar Sanz. Exímio guitarrista,
ele escreveu o livro Instrucción de musica sobre la Guitarra Española,
uma das maiores contribuições para a literatura sobre esse instrumento.
Além da teoria e informações técnicas sobre a prática e performance,
bem como diagramas para as posições das mãos, o livro contém um grande
número de peças para guitarra nos estilos villanos, folias, canários e
españoletas
adaptadas por Rodrigo, em sua Fantasia.

O compositor nasceu em Valência, em 1903. Apesar de ter ficado
totalmente cego aos três anos de idade, ele nunca esmoreceu em seus
propósitos. Aos oito anos já estudava piano, violino e solfejo, com os
professores Francisco Antich e Eduardo Chavarri.

Em 1927, seguindo os passos de Albéniz, Granados e Manoel de Falla,
Rodrigo viajou à Paris, para estudar composição com Paul Dukas, na
Escola Normal de Música. Em pouco tempo ele se revelou como pianista e
compositor entrando para o círculo de amizades de Ravel, Honneger,
Milhaud, Stravinski e de Falla.

Em 1933 Joaquín Rodrigo casou-se com a pianista turca, Victoria
Kamhi, sua principal colaboradora e companheira inseparável até a morte.

No campo político o compositor passou a ser criticado e abandonado
por vários de seus amigos, a partir do momento em que aderiu ao regime
do Generalíssimo Francisco Franco.

Após o sucesso do Concerto de Aranjuez, em 1940, ele foi
nomeado Consultor Musical da Rádio Espanhola e Catedrático de Música na
Universidade de Madrid. Apesar de seu conservadorismo Rodrigo prestou um
importante serviço à música espanhola, auxiliando o país a conservar
sua identidade musical logo após os traumas da sangrenta Guerra Civil.

Em 1991, o Rei Juan Carlos lhe outorgou o título nobiliárquico de Marqués
de los Jardines de Aranjuez
, por sua extraordinária contribuição à
música da Espanha.

Joaquín Rodrigo faleceu em Madrid, no dia seis de julho de 1999.

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